Acho que estou vendo coisas…

Vendo coisas?

Falar sozinho é normal (ufa…), anormal é escutar respostas.

A psicologia explica muita coisa. O subconsciente tem uma força muito grande. Quando você compra um carro, começa a reparar nos demais carros e a achar que tem muito do seu modelo por aí. Pois é, ainda que você compre o veículo mais vendido do país, a quantidade é a mesma, apenas, sua mente, ainda que inconscientemente, começou a prestar mais atenção naquilo que até então não era notado.

Se você é policial, talvez, já teve pesadelos onde fez uso de sua arma de fogo e esta não disparou ou quando disparou, o projétil atingiu o alvo e não produziu os efeitos que se espera. De uma certa amostra de policiais que eu estava no dia que fizemos essa pesquisa, 80% disseram já ter passado por essa experiência durante o sono. Não se assuste se você está entre essa maioria. É apenas a manifestação de um receio que todo policial tem, mas que tentamos “empurrar” para um cantinho esquecido do cérebro…daí em diante fazemos treinamentos, tentamos andar com bons armamentos e munições novas, mas, mesmo assim, esse risco sempre estará ali. Logo, você tem uma boa chance de ser visitado pelo seu medo travestido ou simplesmente seu inconsciente.

Pois bem, consequência natural de toda a lida que temos é que, ainda que não admitamos, nós mudamos. Quem trabalha com segurança pública no Brasil, pela rotina que tem, acaba se transformando para sobreviver a nossa realidade. Isso acontece no consciente e no inconsciente. Ficamos, muitas vezes, mais “frios”. Conseguimos lidar com vítimas de assassinatos sem qualquer sentimento pela vítima, talvez, calcificados pelas lembranças das tantas vezes que essa vítima fora autor e tantos males que nos fez ou a terceiros. Ficamos, ainda, mais espertos. A arma vira companheira inseparável. Qualquer situação passa a ser suspeita e não é difícil de se deparar consultando um antigo colega pois pode ser que esteja com mandado de prisão.

Nessa aí, certo dia saí com minha esposa para tomar um sorvete. Era eu, ela e uma amiga dela. Enquanto descíamos uma rua já indo embora para casa, minha esposa conversava com sua colega… Em certo momento um menor saiu de dentro de uma galeria correndo com um celular na mão e já sumiu por outra entrada. De dentro de um prédio escutei um grito: “pega”. Esse aí já era…

Descendo um pouco mais a noite continuou movimentada. Percebi que três indivíduos suspeitos se aproximavam por trás rapidamente. Não tendo como correr (não largaria minha esposa para trás), só pude encostar na parede de uma loja (visando não ser surpreendido pelas costas) e já levar a mão na arma. Se algum deles se aproximassem e fizessem algum movimento diferente, estava pronto para agir.Polícia não reage, age! Os rapazes passaram. Apenas alarme falso. Talvez, eu esteja vendo coisas…

Ela está vendo coisas!

Quando cheguei em casa minha esposa advertidamente me disse: Você pensa que eu não vi quando você parou perto da parede um pouco a minha frente e olhou para trás só porque passou uma mulher bonita…hunf (hunf, interjeição que significa bufadas nervosas…) bem, depois de um furto acontecer na nossa frente que minha esposa não viu e um quase assalto que ela também não viu, mas viu uma mulher passando… acho que tem mais gente vendo coisas…

Jordão Vieira

Fonte: http://www.queroserpolicia.com.br/


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